O veganismo é mais simples do que parece

"Se é possível coexistir pacificamente com outras espécies, por que explorá-las, violentá-las, matá-las?"

O cerne do veganismo é o reconhecimento do direito à vida (Arte: Hartmut Kiewert)

Durante uma palestra sobre veganismo, fui questionado se não seria errado colocar os animais em um “pedestal” enquanto muita gente passa fome. Respondi que, além das pessoas também serem animais, o veganismo não é sobre colocar animais não humanos em um “pedestal”.

O cerne é o reconhecimento do direito à vida, algo muito simples. Ou seja, se é possível coexistir pacificamente com outras espécies, por que explorá-las, violentá-las, matá-las? Ainda mais levando em conta que ninguém morre por não consumir carne, ovos, laticínios e outros produtos baseados em animais.

O mesmo rapaz comentou que isso não significa que o veganismo seja tão relevante. Então declarei que não sei o que ele qualifica como relevante, mas matamos por ano mais de 60 bilhões de animais terrestres e possivelmente mais de um trilhão de peixes.

Há inclusive estimativas da ONG britânica Fish Count, que estima que é possível que estejamos matando até 2,7 trilhões de peixes por ano – de forma intencional e “acidental”. Isso parece irrelevante?

Além disso, enquanto os seres humanos consomem cerca de 9,5 bilhões de quilos de alimentos por ano, mais de 61 bilhões de alimentos são destinados anualmente aos animais de criação. Isso parece justo e coerente? Levando em conta que são animais que são mortos e reduzidos a produtos.

Se me alimento de animais basicamente ajudo a endossar esses valores que realçam com bastante discrepância as nossas prioridades frente à miséria que testemunhamos e ao mesmo tempo ignoramos porque cremos que não diz respeito a nós; logo entendemos que não temos qualquer obrigação em relação a isso.

“Ainda acho que veganos não dão a mínima para as pessoas, cara. Eles se preocupam só com os animais”, se queixou outro rapaz. Sim, veganismo é sobre os direitos animais, mas não é difícil entender que a partir do momento que enxergamos os animais como sujeitos de uma vida abrimos um precedente para nos aproximarmos um pouco mais de um mundo com mais justiça social.

Afinal, que tipo de mensagem essa luta a favor da não violência passa? Essa luta que questiona o lucro baseado na mortandade? A mensagem de que o dinheiro não é mais importante do que a vida. E a partir do momento que entendemos isso, passamos a questionar nossos valores e a caminhar na contramão das mais diversas facetas da exploração e da violência naturalizada e legitimada.

“Mas legislação a favor dos animais enquanto precisamos de novas leis em benefício da coletividade humana é o cúmulo”, criticou uma moça. Bom, eu não vejo razão para colocar seres humanos e não humanos em posição de antagonismo, já que não existe concorrência nesse sentido.

Há espaço para as mais diferentes lutas, sem necessidade de rivalidade. Outra coisa, você conhece muitos assassinos veganos? Eu não. Claro, você pode até citar algum vegetariano, e provavelmente tenham existido assassinos vegetarianos, mas desconheço assassinos que realmente sejam adeptos do vegetarianismo ético.

Afinal, não sou capaz de associar ética com assassinato. Não há uma conscienciosa ética no homicídio. Você já percebeu também como desde sempre muitos assassinos começaram praticando violência contra inúmeros animais? Posso citar agora Richard Chase, que torturou e matou muitos animais, até que em 1977, enjoado de ferir não humanos, assassinou uma mulher grávida e toda a sua família.

Imagine se tipos como esse ou seus pais tivessem sido responsabilizados por isso desde cedo. Será que não teríamos evitado problemas? Será realmente que legislação específica contra esse tipo de violência não é necessária? Em um mundo ideal, claro, não deveríamos infligir privação ou dor aos animais sob qualquer circunstância, mas por enquanto infelizmente ainda é preciso trabalhar com as poucas ferramentas à disposição.

“Tudo bem, mas já conheci veganos que odeiam pessoas”, apontou outro rapaz. Bom, se essas pessoas socializam com outras, mesmo que ocasionalmente, elas não odeiam pessoas. No máximo, podem odiar determinados tipos de pessoas.

Ainda assim isso não é uma prerrogativa do veganismo, mas sim uma prerrogativa individualmente humana. O veganismo não se volta para o ódio; nem poderia, já que se você odiar as pessoas dificilmente você vai conseguir motivá-las a entenderem como o veganismo pode ser realmente positivo para os animais e até mesmo para elas.

Sendo assim, que resultado teríamos? Não sou capaz de estimular ninguém a ouvir ou ler o que tenho a informar sobre o veganismo se eu tiver um comportamento ou discurso violento ou odioso. Por outro lado, as pessoas terem momentos de raiva, de cólera, não é anormal, aberrante.

Isso não significa que elas acordem anotando em um caderninho quem elas planejam exterminar. E se fizessem isso, claro que não teria qualquer relação com o veganismo, já que o veganismo em si não endossa esse tipo de conduta.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here