O vegetarianismo na literatura de Mary Shelley

"Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite”

Frankenstein: “A imagem que apresento a vocês é humana e pacífica” (Imagem: Getty)

A escritora britânica Mary Wollstonecraft Shelley, famosa pela criação do monstro de Frankenstein, um dos mais emblemáticos da literatura mundial, foi influenciada pelo vegetarianismo, por meio de sua família e de alguns autores.

Quando decidiu escrever aquela que se tornaria sua grande obra, a maior inspiração da escritora não foi basicamente o mito grego do titã Prometeu, um defensor da humanidade que roubou o fogo de Héstia e presenteou os mortais, mas também o conceito de nobre selvagem, cunhado pelo filósofo suíço e defensor do vegetarianismo Jean-Jacques Rousseau.

“Mas considerai primeiro que, querendo formar o homem da natureza, não se trata por isso de fazer dele um selvagem e de relegá-lo ao fundo dos bosques, mas, envolvido em um turbilhão social, basta que ele não se deixe arrastar nem pelas paixões, nem pelas opiniões dos homens; veja ele pelos seus olhos, sinta pelo seu coração; não o governe nenhuma autoridade, exceto a de sua própria razão”, declarou o suíço em “O Bom Selvagem”.

Em primeiro lugar, a busca pelo autoconhecimento; depois o interesse pela linguagem e pelas convenções sociais. Ponderando sobre tal premissa idealizada por Rousseau, Mary Shelley moldou um anti-herói vegetariano que nada mais é do que o ser humano em seu estado mais impermisto. A maior prova disso é que ainda isento dos vícios da civilização, o monstro vive na floresta, onde se alimenta estritamente de bagas e oleaginosas, não de carne, já que ele não vê sentido nem necessidade em matar animais para se alimentar.

No século 19, embora o romantismo tivesse estreita relação com o vegetarianismo, a verdade é que fora de alguns círculos literários não eram numerosos os que falavam sobre a questão vegetariana no romance “Frankenstein”. Muitos reconheciam as qualidades de Mary Shelley como escritora, mas isso não significa que a mesma atenção era dada às suas crenças e valores manifestos ou não em seu trabalho.

Influências vegetarianas

Ao contrário de muitos autores que se tornaram vegetarianos já adultos, ela teve a oportunidade de crescer em uma família que sempre simpatizou com o vegetarianismo, inclusive quase todos os amigos de seu pai William Godwin também eram vegetarianos. Assim, desde cedo, Mary Wollstonecraft foi incentivada a entender que o consumo de carne dependia do sofrimento animal, assim como desenvolveu desde cedo um interesse pela defesa dos direitos das mulheres.

Na juventude, depois de conhecer alguns dos maiores intelectuais que defendiam a abstenção do consumo de animais, a escritora começou a ler obras como “An Essay on Abstinence from Animal Food: as a Moral Duty”, do britânico Joseph Ritson e “The Return to Nature, or, a Defense for the Vegetable Regimen”, de John Frank Newton, pensadores e autores que influenciariam o veganismo, assim como William Lambe, de quem ela leu o livro “Water and Vegetable Diet”.

Mary Wollstonecraft também inspirou-se em Plutarco, John Milton e nos textos em grego antigo e latim que abordavam a vida de Pitágoras, que também condenava o consumo de carne. Cercada por pessoas que não consumiam alimentos de origem animal, ela casou-se em 1816 com Percy Bysshe Shelley.

Além de ter sido um dos mais importantes poetas românticos da Inglaterra, ele era um ativista vegetariano e precursor do veganismo. O poeta lançou obras polêmicas como “A Vindication of a Natural Diet” e “On the Vegetable System of Diet”. No prefácio do primeiro, ele publicou um excerto do seu poema “Rainha Mab”:

Não mais agora

Ele mata o cordeiro que o observa

E terrivelmente devora sua carne mutilada;

“Não tenho que matar para saciar o meu apetite”

Além de Mary Wollstonecraft e Percy Shelley, outros românticos como Alexander Pope e Thomas Tryon ajudaram a promover o vegetarianismo na Europa. No entanto, nenhum romance daquele período superou a popularidade de “Frankenstein”. Em uma das passagens do livro, a criatura se emociona ao dizer que sua comida não é a mesma dos seres humanos:

“Não tenho que matar o cordeiro e a cabra para saciar o meu apetite. Bolotas e bagas são o suficiente para a minha alimentação. Minha companheira vai ser da mesma natureza que a minha, e vai se contentar com o mesmo que eu. Faremos a nossa cama de folhas secas; o sol vai brilhar sobre nós da mesma forma que brilha sobre os homens, e ele vai amadurecer a nossa comida. A imagem que apresento a vocês é humana e pacífica.”

Na essência, o monstro de Mary Wollstonecraft Shelley carregava em si uma perfeição moral ausente no ser humano, rendido ao antropocentrismo e aos excessos da ganância, da vaidade e da megalomania.

Embora haja controvérsias se a autora de “Frankenstein” viveu até os seus últimos dias como vegetariana, é inegável que ela contribuiu com o vegetarianismo. Talvez a sua maior contribuição, considerando a que tem mais condições de resistir ao tempo, seja a idealização de uma criatura desafortunada que reprovava também o hábito humano de se alimentar de animais.

“Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações”, escreveu Mary Shelley em “Frankenstein”, externando, de forma sutil percepções sobre a jactância, volatilidade, fragilidade e exaltação da superioridade humana.

Saiba Mais

Mary Shelley nasceu em Londres em 30 de agosto de 1797 e faleceu em 1º de fevereiro de 1851.

Referências

Shelley, Mary. Frankenstein. CreateSpace Independent Publishing Platform (2015).

Shelley, Percy Bysshe. A Vindication of Natural Diet: Being One in a Series of Notes to Queen Mab (1813).

Bellows, Martha. Categorizing Humans, Animals and Machines in Mary Shelley ’s Frankenstein. Página 6. University of Rhode Island (2009).

Fortes, Luis Roberto. Rousseau: o bom selvagem. 2º ed. – São Paulo: Humanistas: Discurso Editorial (2007).

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