
No romance “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector, há um momento em que G.H. observa que “estivera o tempo todo sem querer pensar no que já realmente pensara: que a barata é comível como uma lagosta, a barata era um crustáceo”.
Como a barata é um inseto, há uma percepção e ao mesmo tempo uma provocação de G.H.. Dessa observação em que ela evoca uma relação de proximidade entre animais considerados comíveis e não comíveis surge uma relação conflituosa e porque é também desconfortável.
Humanos não gostam de estabelecer uma relação entre comível e não comível envolvendo animais por quem sentem nojo ou qualquer sentimento que, culturalmente, está em oposição aos anseios de consumo. Fazer isso é provocar um grande estranhamento ou repulsa.
A ideia da barata como uma lagosta é também a ideia da barata como camarão, já que o camarão é conhecido como a barata do mar. Há a questão do devir-animal explorada por G.H. no ato de comer uma barata morta e que gera inevitável apreensão. Mas de onde viria essa apreensão senão da crença de que a barata não é comível e outros animais são?
Portanto ao pensar na barata como comível, e o incômodo que isso gera, pode-se pensar também em quem se come pela mesma relação que não é estabelecida também por uma questão não somente de pensar os hábitos do animal, mas também a inserção da sua condição estética na percepção humana.
G.H. tem como motivação um interesse em estabelecer um outro tipo de relação com a barata, mesmo já sem vida, e que remete ao saber como é ser a barata, como se sente a barata – a animalidade humana se conectando, ou pelo menos buscando uma conexão, com a animalidade não humana. Mas nada disso afasta para o leitor o desconforto persistente de comê-la, de imaginá-la já sendo comida muito antes desse ato.
Como o camarão é um crustáceo até por uma questão econômica mais consumido no Brasil do que a lagosta, podemos refletir se, apesar de suas diferenças biológicas, é o camarão, sobre quem se diz que age na água como a barata age na terra, tão diferente da barata, ou é nossa relação com esses animais que determina o que será feito deles? Se excluíssemos a percepção normalizada que temos do camarão como fim no consumo e pensássemos somente em suas características e hábitos, insistiríamos em consumi-lo?
Por outro lado, não podemos dizer que um seja privilegiado em detrimento de outro, se os dois são mortos – um para o fim na alimentação e outro para que não o encontremos mais ou para que não transite por um espaço que definimos estritamente como nosso, ainda que humanos sequer estejam, numericamente, entre os maiores habitantes do planeta. Também não estão entre os primeiros.
Também é interessante considerar a observação de que baratas, diferentemente de nós, podem sobreviver a uma guerra nuclear, pela capacidade de suportarem até 20 vezes mais radiação do que o ser humano. Essa é uma característica sobre a qual não podemos prevalecer.
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