
O problema que existe na afirmação de que o problema do sofrimento dos animais está na indústria é que isso faz parecer que o problema não está em nossos hábitos de consumo e que sequer temos responsabilidades sobre eles. Afinal, não é cômodo dizer que, mesmo quando consumimos produtos de origem animal, se existe algo de errado nisso não é sobre nós, mas sobre a indústria?
Isso também leva a uma conclusão de que há uma forma aceitável de consumir animais e que basta a indústria “fazer o que deve ser feito”. Essa posição também vem acompanhada de uma abstração, porque ao mesmo tempo em que se fala em indústria não se pensa especificamente no que quer dizer indústria.
Mas se o problema do sofrimento dos animais está na indústria, e porque não tem como não ser parte da indústria, como isso pode ser um problema sem uma conexão com nossos hábitos de consumo? Como essa indústria seria possível sem relação com nossos interesses? É coerente crer que é possível explorar e matar animais sem gerar qualquer tipo de sofrimento?
Claro, podemos acreditar que sim, mas se pensamos no que implica para esses animais os produtos que consumimos, isso realmente faz sentido? Devemos ter em mente que a vida de um animal usado como fim no consumo, mesmo quando o objetivo primeiro não é a carne, é sempre condicionada ao produto que ele pode gerar. E não podendo, não permitirão que ele continue vivo, se ele só pode viver conforme sua utilidade, já que sua vida é instrumentalizada para fins de lucro-consumo.
Essa é a realidade do animal que existe para a indústria. Mas há uma incompletude nessa afirmação, porque dizer que o animal existe para a indústria é como dizer que ele tem como fim a indústria. Essa é uma afirmação equivocada porque a indústria é um meio, meio pelo qual são obtidos hoje a maioria dos produtos de origem animal.
Como a indústria existiria e se sustentaria sem a demanda de tantos consumidores? Portanto se a indústria é um problema é porque o consumo é um problema. A solução então não está na indústria e sim no consumo, já que mudar o consumo é mudar a indústria. Afinal, se algo não está mais dando lucro, e o que proporciona o lucro, claro, é o consumo, a indústria precisa se adaptar a uma nova realidade.
A única forma de a indústria resolver definitivamente o problema do sofrimento dos animais é deixando de usá-los, mas ela só deixará de usá-los se o consumidor deixar de comprar produtos baseados em animais. É uma lógica bem simples.
Claro que muitos consumidores não querem dedicar atenção ou se preocupar com o sofrimento dos animais ou com qualquer questão relacionada aos animais. Assim, mesmo quando cientes de que a responsabilidade não pode ser só da indústria, é mais conveniente crer que sim.
Isso torna a crença no reformismo uma crença como solução para o problema – como se o problema estivesse na forma e não no uso. Porém, a reforma, nesse caso, está mais relacionada a cobrar a indústria, o que deixará a critério da indústria decidir ou não mudar.
O consumidor pode pressionar a indústria, sem dúvida, mas isso não é mais eficaz ou mais efetivo do que se muitos consumidores abdicassem desse consumo. Isso não envolve ter de pedir nada a ninguém e obrigaria a indústria a mudar sem a necessidade de acordos que além de não livrarem os animais da exploração pode ser que nem sejam cumpridos, que sejam somente promessas.
Principalmente pessoas que não querem mudar seus hábitos tendem a comprar a crença no reformismo, de que é possível “oferecer uma melhor vida para os animais sem deixar de usá-los para consumo”. Mas se o problema pode ser resolvido de forma realmente mais benéfica para os animais apenas mudando hábitos de consumo, não é uma medida mais justa, mais efetiva?
A indústria não existe sem nossos interesses de consumo e são esses interesses que são determinantes para transformá-la, assim como são esses interesses que garantem a perpetuação do sofrimento dos animais. Logo se a maioria de nós antagonizasse esse consumo, a indústria só teria continuidade se mudasse, e uma mudança que exigiria aceitar o não uso de animais. Enfim, acabar com o sofrimento dos animais depende de nós, não da indústria que faz uso dos animais.
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