Será que as grandes empresas querem distorcer o veganismo?

Mercado se comporta e se transforma de maneira pragmática, de acordo com os hábitos adquiridos pelo consumidor

O que elas fazem é dizer algo como: “Olhe, estamos lançando um produto no mercado que não tem nada de origem animal, e isso talvez possa lhe interessar” (Foto: Shutterstock)

Já faz tempo que tenho visto pessoas associando a produção de alimentos não animais por grandes empresas como uma “tentativa de apropriação e distorção do veganismo ou da redução do veganismo a um hábito de consumo”. Isso é tão verdadeiro quanto equivocado.

Elas não dizem que querem ajudar os veganos

Não creio que essas empresas tenham intenção de buscar uma apropriação indevida ou intervenção em qualquer filosofia de vida. Afinal, não difundem propagandas associando suas imagens ao veganismo, não dizem que estão buscando a libertação animal ou que querem ajudar os veganos. Não existe nada disso em evidência ou sendo vaticinado.

O que elas fazem é dizer algo como: “Olhe, estamos lançando um produto no mercado que não tem nada de origem animal, e isso talvez possa lhe interessar.” Então as pessoas são livres para comprar ou não esse produto com base em suas simpatias ou antipatias.

Você pode gostar ou desgostar de determinados tipos de empresas por motivos diversos, por ser anticapitalista ou por não querer dar dinheiro para empresas que produzem também alimentos de origem animal, por exemplo, mas disseminar a ideia de que essas empresas querem perverter o veganismo ou miná-lo em sua essência não me parece muito realista.

Mercado se comporta e se transforma de maneira pragmática

O mercado se comporta e se transforma de maneira pragmática, de acordo com os hábitos adquiridos pelo consumidor. Se há demanda para um produto sem nada de origem animal, elas vendem, e se o retorno for positivo, as vendas são mantidas ou elevadas e podem surgir mais investimentos em produtos análogos.

Se não houver vendas, tiram o produto do mercado e investem em outros. Realmente tudo indica que essas empresas não estão nem aí para o veganismo. Inclusive inúmeras preferem evitar qualquer associação de seu produto com o veganismo, logo como podem distorcê-lo?

Em várias partes do mundo, muitas empresas evitam usar o termo “produto vegano” em destaque, preferindo algo como “à base de vegetais”, “à base de plantas”, “plant-based”, “100% vegetal”, etc; e por um motivo que parece claro há muito tempo – não estão priorizando os consumidores veganos, que são minoria, mas todos aqueles que podem querer experimentar um produto de origem vegetal em vez de um animal – torne-se isso hábito ou prática esporádica.

Pequenas empresas não estão ao alcance de todos

Esses consumidores podem virar veganos ou não, o que também não é uma preocupação das grandes empresas – já que para elas a prioridade é apenas ter quem consuma esse produto, o que também pode ser uma contribuição para que uma pessoa decida trocar um produto de origem animal por um de origem vegetal.

Até porque para muita gente o interesse em experimentar um produto está associado à sua disponibilidade e preço. Há pessoas, por exemplo, que não gostam de cozinhar e buscam comodidade, então não adianta você dizer a elas para criar a sua própria versão em casa.

Também defender que elas deveriam comprar de pequenas empresas veganas, por mais louvável e importante que isso seja, é uma questão de escolha e não se aplica a uma realidade nacional onde empresas veganas ainda não estão presentes nem existem na maior parte do interior do país.

Consumidores podem mudar de ideia

Então há pessoas que podem optar por consumir aquilo que, considerando suas predileções, está ao seu alcance, mas que podem mudar de ideia de acordo com a disponibilidade, qualidade e surgimento de ofertas de outras empresas, menores ou não.

Além disso, segundo o IBGE, o Brasil é um país onde o rendimento domiciliar per capita médio foi de R$ 1.439 em 2019, então claro que, no geral, preço também pesa na compra de bens de consumo – e pequenas empresas podem praticar tanto preços justos ou proporcionais quanto abusivos.

Ademais, pequenas empresas que vendem produtos veganos nem sempre são veganas. Também há pessoas empreendendo nesse mercado de pequenos produtores ou fabricantes que não são veganas, mas que viram oportunidades de investimento e lucro com base em novos hábitos de consumo. O que também não muda o fato de que elas têm o potencial de contribuir com a desaceleração no consumo de produtos animais.

Termo “vegano” não é tão bem visto pelo mercado

Talvez outro ponto a se considerar é que no contexto de grupos empresariais e de associações e cooperativas que estão produzindo alimentos à base de vegetais, tanto em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Brasil, além de outros, há uma discussão sobre a utilização do termo “vegano” em relação a um produto, pela sua associação ideológica com “ativismo” e “militância”, algo que não é muito bem visto por quem visa atingir um público maior de consumidores – incluindo também quem não simpatiza com o veganismo.

Na minha opinião, é mais uma prova de que o grande mercado não está preocupado em distorcer o veganismo. Acredito que as grandes empresas nem anseiam por tal associação, mas, claro, se interessam por lançar produtos sem nada de origem animal no mercado porque existe demanda, logo entendem isso como oportunidade de lucro, assim como fariam em relação a alguma tendência de consumo.

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