No filme “Wicked”, a relação de respeito com outros animais é rompida. Em uma de suas aulas na Universidade Shiz, o professor Dr. Dillamond (Peter Dinklage), que é um bode, lembra que os animais já foram ouvidos e respeitados. Essa declaração remete ao silenciamento dos animais não humanos e à emergência do especismo em Oz.
Mesmo usando do antropomorfismo comum à fantasia, o filme nos permite pensar sobre a realidade dos animais não humanos. E nesse cenário, Elphaba (Cynthia Erivo) é a voz mais antagônica ao que é feito contra esses animais – o que tem relação também com a sua própria compreensão da experiência da diferença, já que ela sofre preconceito desde a infância por ser verde, desenvolvendo desde cedo uma maior empatia.
A diferença de que fala também o Dr. Dillamond é usada em Oz como justificativa para privar os animais de direitos e interesses. Essa mesma diferença é o que dá base ao especismo e a crença de que a diferença, nesse caso, é expressão de inferioridade. Portanto o lugar desses animais só pode ser de subalternidade.
Quando o Dr. Dillamond é retirado à força da sala de aula e seu destino é desconhecido, testemunhamos também a sua forçada invisibilização. E essa ação que é motivada por um interesse em silenciar essas vozes é representada por uma frase no quadro da sala de aula: “Animais devem ser vistos, não ouvidos.”
Podemos lembrar que a exploração de animais não humanos, como para consumo ou qualquer outro fim, e as ações que não levam em conta os interesses deles também fora desse contexto (quando se prejudica, por exemplo, animais silvestres na natureza silvestre), também são sobre não ouvi-los.
Afinal, se fossem, não seriam explorados nem teriam seus interesses preteridos mesmo em casos de não exploração. Portanto ouvir é considerar, não limitando-se a um raso olhar.
A transição para o especismo como algo dominante em “Wicked” pode ser exemplificada pelo momento em que o novo professor, que substitui o Dr. Dillamond, apresenta um filhote de leão preso em uma gaiola, algo desconhecido pelos alunos, já que a prática de engaiolar/enjaular animais ainda era novidade. Ele diz que é uma inovação e que também é para o bem dos animais.
“Se é tão bom por que ele está agitado? Reagindo assim?”, questiona Elphaba. “Ele apenas está feliz em estar aqui”, diz o professor. A dissimulação é uma prática muito comum quando se quer manipular a percepção de alguém. E o que o professor afirma sobre esse animal é semelhante ou o mesmo que tantos afirmam sobre a realidade de tantos animais submetidos aos interesses humanos no mundo real – de que eles estão felizes em suas condições de privação, exploração, etc, logo uma contradição que busca uma aceitação. Mas o professor não consegue dissuadir Elphaba.
Sua intenção de naturalizar essa prática contra os animais funciona como uma aula para ser especista, e que faz parte das mudanças que, em uma observação precedente do Dr. Dillamond, levam a uma rejeição à cultura animal.
Sua explicação também traz em si um sentido muito comum ao especismo no mundo real que é pensar somente o outro como animal, como quem não sou e sobre quem ratifico uma diferença que possa preterir seus interesses.
Dr. Dillamond faz referência a uma época em que havia uma relação de harmonia com os animais não humanos e que eles eram respeitados. Em suas expressões, também eram reconhecidos como fontes de conhecimento e sabedoria e não eram tratados como se estivessem ou devessem estar abaixo de outra espécie. Isso também lembra a chamada “era de ouro”, referenciada por Pitágoras.
Em “Wicked”, uma grande seca é citada como início do fim da relação de respeito com os animais não humanos, que foram, por conveniência, culpabilizados com base em um olhar sobre a diferença em um período em que a comida se tornou escassa. Isso quer dizer que em vez da diferença ser vista como algo a se respeitar, passou a ser vista como algo a se usar como pretexto para desconsiderar e também prejudicar esses animais.
Diferentemente do Dr. Dillamond, o novo professor diz que é preciso olhar somente para o futuro. “O benefício de enjaular um animal tão jovem é que provavelmente ele nunca aprenderá a falar, nunca terá voz”, diz, gerando grande incômodo em Elphaba, mas nem tanto nos outros alunos, que já não rejeitam o especismo.
“Já imaginou um mundo em que os animais são mantidos em gaiolas/jaulas e nunca aprendem a falar?”, questiona Elphaba, esperando uma reação de equivalente indignação de Galinda (Ariana Grande) e Fiyero (Jonathan Bailey), o que naquele momento também não ocorre. Ainda assim, quando, como uma resposta emocional de Elphaba, quase todos desmaiam em consequência de um encantamento involuntário, ela e Fiyero (que não é afetado pelo encantamento), pegam o filhote de leão e o libertam na natureza silvestre.
Após receber um convite para visitar o Mágico de Oz (Jeff Goldblum) é que Elphaba tem uma surpresa. Durante a visita, após declarar que “o seu maior desejo é que o mágico ajude os animais”, ela descobre que tanto ele quanto Madame Morrible (Michelle Yeoh), que decide ser sua mentora, estão envolvidos no silenciamento e subjugação dos animais.
Ela se depara com uma realidade em que os animais já estão sendo instrumentalizados de acordo com interesses que não são os desses animais. E a reação negativa de Madame Morrible e do Mágico de Oz em relação à Elphaba decorre da resistência dela em ser instrumentalizada, já que ela possui habilidades que eles não possuem. Portanto a aproximação deles com ela visa um fim, um fim que não é o interesse de Elphaba, mas o deles, como também ocorre com os animais não humanos.
Mas Elphaba só descobre isso após cair em uma armadilha para que ela recite o grimório, uma ação que, ao prejudicar os animais não humanos, permite que esses animais sejam manipulados e colocados contra Elphaba, como ocorre a partir do poder de manipulação de Madame Morrible.
Essa manipulação resulta em sofrimento aos animais, interferindo em suas naturezas, ao mesmo tempo em que os coloca contra Elphaba, que é a personagem da história mais interessada em ajudá-los. Essa ação também visa colocar subjugado ao lado dos subjugadores e como se esses estivessem interessados em ajudá-los – o que também reflete um interesse não apenas na manutenção da subalternização como no aumento dessa subalternização.
O professor Dr. Dillamond, por exemplo, é o último animal não humano a ser excluído de uma posição de ser ouvido. A reação dos alunos em relação a ele também já reflete o que ele classifica como uma rejeição à cultura animal. Podemos perceber isso na cena em que o Dr. Dillamond, por não ter os dentes incisivos superiores, o que é da natureza dos bodes, é vítima de zombaria por não conseguir pronunciar o nome Galinda.
Nesse momento, tanto ele quanto Elphaba chamam a atenção para a importância do respeito às diferenças, o que é ignorado na sala em decorrência de uma desatenção que também está relacionada com o especismo, e que é um sinal de que tudo está piorando para os animais não humanos.
Mas comparando “Wicked” com a realidade, o especismo está mais entranhado no mundo em que vivemos do que na fantasia do filme. Basta ver como os animais não humanos são tratados e reduzidos diariamente aos interesses humanos – para consumo, outros usos e também por apenas ocuparem espaços naturais, que são seus próprios espaços, e que são impactados pela ação humana.
Também é por isso que o filme serve para refletir sobre o especismo, já que ele permite considerações que são feitas na obra a partir da relação com uma realidade precedente de respeito à cultura animal. Por isso, o Dr. Dillamond insiste que é preciso conhecer o passado e refletir a respeito.
Mas, trazendo para a nossa realidade, mesmo na inexistência de uma outra “realidade precedente”, isso não deixaria de tornar necessária uma transformação visando a superação do especismo – já que o especismo é também um tipo de preconceito que existe para justificar o mal contra outros animais com base nos interesses humanos.
Observações
O fato do Dr. Dillamond ter sido o último professor que era um animal não humano a dar aulas em Shiz, universidade de Oz frequentada por Elphaba e Galinda, marca um período de domínio sobre os animais e a ruptura com uma relação de respeito.
Assim como o filme serve para pensar o especismo, que decidi priorizar neste texto, também serve para pensar sobre outros preconceitos, sobre o autoritarismo, a manipulação e desconsideração dos mais vulneráveis.
Há um momento em que Dr. Dillamond se reúne com outros animais e é dito o seguinte: “Somos forçados a ficar em silêncio”, que é a realidade dos animais não humanos e de todos aqueles que são subalternizados em contextos onde predomina a arbitrariedade. Enfim, o filme também permite pensar o especismo como um autoritarismo, se partimos da experiência das vítimas.
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