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O corpo de um animal é um corpo disponível para ser violado?

Uma reflexão a partir da série “Black Mirror”, em que uma porca é vítima de violência sexual  

O corpo de um animal não humano é um corpo disponível para ser violado? É uma pergunta que pode ser feita a partir do primeiro episódio, “Hino Nacional”, da primeira temporada da série “Black Mirror”, em que a condição para a libertação de uma princesa é que o primeiro-ministro violente sexualmente uma porca.

Em nenhum momento do episódio o ato é citado como estupro, violência ou violação. Não há franca consideração sobre a experiência do ato para a porca. O que é reforçado a todo o momento é como isso é humilhante e degradante para o ser humano; e como é algo percebido pelo público também como jocoso, risível, “um ataque à dignidade humana”.

Todo o viés é de implicação humana, numa desconsideração da experiência não humana, o que representa esse ato também sobre o que é ou não aceitável sobre a condição não humana e sua vulnerabilidade – já que o animal é alimentado e drogado para ser violentado. Isso corrobora também a intencionalidade sobre o que é imposto ao animal para fim humano, e que pode ser pensado para muito além dessa situação-exemplo.

Embora a “exigência da violência sexual” possa ser colocada como uma situação de excepcionalidade, é um equívoco ignorar que, se olhamos para a realidade externa ao episódio, a violência sexual contra os animais é uma constante.

Afinal, muitas práticas com fins econômicos e de consumo são baseadas no ser humano exercendo domínio sobre a sexualidade de outros animais. Podemos pensar em suínos, bovinos, galináceos, ovinos, etc. Enfim, animais que têm um ciclo reprodutivo e suas intimidades submetidos ao viés humano.

É a perspectiva predominante sobre esses animais que determina como olharemos para eles e o que permitiremos. Isso ocorre porque há atos extremos contra eles que podem ser vistos como não extremos, e se são, geralmente o olhar de implicação é sobre o ser humano olhando para o ser humano.

A hesitação sobre o ato na história em nenhum momento é sobre o animal não humano, e sim centrada na figura humana. Olhares do público de deboche e nojo não deixam de evocar uma desconsideração que só persiste pelo lugar imposto aos animais, e uma estranheza pelo que é o corpo não humano, não o interesse não humano.

A série está disponível na Netflix.

Leia também “Por que ignorar a violação sexual na exploração animal?”, “Como a violação sexual de animais pode ser normalizada?” e “Como o consumo naturaliza a exploração da sexualidade não humana”.

Jornalista (MTB: 10612/PR) e mestre em Estudos Culturais (UFMS).

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