Por que se vestir com a morte de animais?

O animal já estava morto quando arrancaram-lhe a pele, mas imaginou como seria se arrancassem a sua e circulassem por aqui e por lá com pedaços dela

Dizer que o couro não gera morte não significa que não depende de morte (Fotos: Animal Save Movement/Reprodução)

 

O animal já estava morto quando arrancaram-lhe a pele, mas imaginou como seria se arrancassem a sua e circulassem por aqui e por lá com pedaços dela, transformada em coisas que as pessoas gostam de usar, mesmo sem precisar; e se precisar, por que ser algo que depende da morte de alguém?

Mesmo que o couro não seja um fim, e que depende de outro fim, a ideia de carregar na mão, no bolso ou sobre o corpo o que foi um pedaço de alguém começou a incomodar. Estar na rua e ver couro estimulava o pensar sobre a origem do couro, que é pele, morta e modificada. “Quem é o sujeito desse couro? Que idade tinha? Onde nasceu? O que desejou?” As perguntas não paravam de se avolumar.

Só de olhar, avesso ao interesse de perpetuar, reconheceu no atrito do corpo humano com o couro bovino um toque de vida e morte, uma interação arbitrária – a vida tocando a morte e a morte tocando a vida, uma forma desprivilegiada e dominada para uma forma privilegiada e dominante.

Pensou num bezerro saindo de dentro da mãe e recebendo lambidas na pele, que será desejada para ser arrancada; num boi esfregando-se nalgum lugar, sentindo o que é possível pela pele, e como a pele foi-lhe um meio de tantas sensações, no contexto humano, irrefletidas. O toque no corpo, o atrito durante o transporte, a experiência de ter a faca atravessando a pele para tirar-lhe a vida.

Sim, as sensações que vêm do que logo é chamado somente de couro. Por que o couro não é pensado como pele, e inerente a um corpo, mas como algo a ser arrancado de um corpo? Falar em couro parece ser falar em algo que naturalmente desloca-se do corpo.

É como se a pele existisse para não estar no animal, como se fosse somente provisória em relação a ele, porque, enquanto é morto cedo, sua pele sem vida prevalece, no irreconhecimento, como matéria tratada, diversa e fragmentada de violência.

Dizer que o couro não gera morte não significa que não depende de morte. De que corpo não seviciado viria o couro se é parte de uma demanda estrutural por resultados conjugados de violência? Pensar no couro fazia ver mais couro. E se o couro viesse com um rosto, uma memória, uma história?

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Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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