Uso de antibióticos na pecuária é mais grave do que parece

OMS vê realidade com preocupação e entidades e pesquisadores temem que o uso indiscriminado possa trazer consequências futuras ainda mais graves

Uso de antibióticos em animais saudáveis tornou-se comum no mundo todo (Foto: Getty)

Não foi por acaso que a Organização Mundial de Saúde (OMS) criou uma Semana Mundial de Conservação Antimicrobiana que começa hoje (18) e termina na terça-feira (24).

Um dos temas mais discutidos em tempos de pandemia tem sido o uso indiscriminado de antibióticos na pecuária, que tem favorecido um cenário em que os medicamentos tornam-se ineficazes não apenas no tratamento de infecções que atingem animais, mas também humanos.

Recentemente uma pesquisa da World Animal Protection (WAP) alertou sobre o temor de que uma próxima pandemia possa vir da pecuária e em consequência do aumento das superbactérias resistentes a antibióticos. A primatologista Jane Goodall já manifestou várias vezes a mesma preocupação, assim como a PETA, Farm Sanctuary e grupos de mídia como a BBC e a National Geographic.

No entanto, o número de animais criados em confinamento e em condições em que o uso de antibióticos é padrão na cadeia da pecuária/indústria da carne, e não apenas para tratar problemas de saúde, mas também para “prevenir” ou favorecer o desenvolvimento de “animais de fazenda” saudáveis, não vem desacelerando, muito pelo contrário, está aumentando.

Mais carne e mais antibióticos 

No Brasil, por exemplo, no terceiro trimestre de 2020 foram abatidos mais frangos e porcos, animais que costumam ser criados amontoados ou muito próximos uns dos outros – o que favorece o surgimento de infecções e doenças, do que no mesmo período de 2019. A realidade mundial também não é diferente.

Há uma tendência predominante ainda em ignorar que o uso excessivo de antibióticos pode desencadear um dos maiores problemas do nosso tempo, já que quanto mais animais criados para consumo, maior será o uso desses medicamentos. Ademais, como achar normal que, com base em dados da OMS, até 80% do volume mundial de antibióticos é utilizado somente na pecuária?

Se preocupar com uma possível pandemia associada à resistência antimicrobiana não é absurdo; e como disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em 2019, a falta de antibióticos eficazes é uma ameaça de segurança tão séria como um surto de uma doença súbita e mortal.

Afinal, como reforçado pela entidade, alguns tipos de bactérias que causam infecções graves em humanos já desenvolveram resistência à maioria ou a todos os remédios disponíveis — e há poucas opções promissoras de pesquisa em etapa de desenvolvimento para uso clínico.

Indústria bilionária 

Além disso, de acordo com dados da Animal Pharm, a indústria farmacêutica lucra cinco bilhões de dólares por ano com a produção de antibióticos para animais criados para consumo – como bovinos, suínos, aves, etc – o que também pode dificultar a desaceleração.

Há uma estimativa de que mais de 131 mil toneladas de antibióticos são utilizadas todos os anos na pecuária mundial. Segundo levantamento do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, os porcos são os animais que mais recebem antibióticos.

Após o desmame precoce, normalmente os leitões têm as caudas cortadas e são castrados sem anestesia, e é nessa etapa que começam a receber as primeiras doses de antibióticos, de acordo com informações do estudo comandado pelo pesquisador e epidemiologista Thomas van Boeckel e citado pela organização World Animal Protection (WAP).

Em 2019, um especial da BBC One denunciou a utilização indiscriminada de antibióticos na avicultura no Reino Unido, onde é mais comum o uso de ionóforos, com a finalidade de prevenir a coccidiose, doença intestinal que afeta frangos e galinhas quando ingerem os próprios excrementos ou de algum parceiro de confinamento.

Carne com antibióticos no Brasil

No Brasil, a organização Proteção Animal Mundial denunciou em 2018 a presença de bactérias multirresistentes em amostras de carne de porco comercializadas em grandes redes de supermercados do Brasil, como Carrefour, Extra, Pão de Açúcar e Walmart. As análises foram realizadas pela Universidade de São Paulo (USP).

Outro ponto crítico é que pouco se fala no impacto ambiental do uso de antibióticos na pecuária. Segundo um estudo da Universidade de York, na Inglaterra, as concentrações de antibióticos em alguns rios do mundo excedem os níveis seguros em até 300 vezes.

Os pesquisadores buscaram resíduos de 14 antibióticos ​​em rios de 72 países e os encontraram em 65% dos locais monitorados.

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