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Algas podem revolucionar mercado de carnes vegetais

Algas estão sendo utilizadas para conquistar o paladar dos consumidores de carne (Fotos: Triton Algae Innovations)

Não é novidade que a maior meta de muitas empresas que investem exclusivamente em carnes vegetais é oferecer opções que estimulem os consumidores a trocarem a carne resultante da cruel matança de animais pelas alternativas à base de vegetais.

No entanto, para conquistar esse objetivo, não há outro caminho que não seja investir em produtos que mimetizam a experiência do consumo de carne. Afinal, vivemos em um mundo onde, embora o veganismo esteja em ascensão, a maior parte dos consumidores ainda não se vê abdicando desse consumo – o que explica também a razão de muitas empresas mirarem um mercado mais amplo do que o mercado consumidor vegano.

Algas como meio de desestimular o consumo de carne

Hoje, um dos ingredientes que pode revolucionar o mercado de carnes vegetais, embora não sejam vegetais, são as algas, e não por também serem uma boa fonte de proteínas, mas sim pela capacidade que as algas têm, com a tecnologia adequada, de agregar forma, textura e suculência às carnes vegetais, ampliando a possibilidade dos produtos não animais serem uma opção atrativa para quem ainda consome carne.

Isso é positivo, até porque, ainda que o mercado conte cada vez mais com opções de alternativas à carne, há muito que pode ser feito para afastar o consumidor dos produtos de origem animal, e uma experiência alimentar que o cative pode surgir a partir do consumo de algo que melhor represente uma memória gustativa ou até mesmo consiga superá-la – e as algas estão sendo utilizadas com essa finalidade por startups de diversas partes do mundo.

Um exemplo é a francesa Algaia, que atende ao mercado de carnes à base de vegetais e nos últimos três anos já totaliza investimentos de mais de R$ 62 milhões e crescimento de pelo menos 25% nos primeiros quatro meses de 2020, mesmo com a crise do coronavírus. Segundo o diretor de desenvolvimento da Algaia, Frederic Faure, a covid-19 está forçando uma mudança de paradigma em direção a soluções alimentares mais seguras, rastreáveis e sustentáveis.

Empresas veem grande potencial nas algas

No Brasil, a Fazenda Futuro, que lançou a sua primeira linguiça vegetal em abril, também já reconheceu nas algas um ingrediente que pode ampliar a aceitação de seus produtos. A foodtech as utilizou como revestimento da carne vegetal – favorecendo o chamado “formato clássico” do produto, com a intenção de mimetizar a linguiça suína.

Outras empresas também veem nas algas um potencial diferente – de substituição dos laticínios – como é o caso da Triton Algae Innovations, sediada em San Diego (CA), nos EUA. A startup está replicando a partir de algas silvestres, não transgênicas, as mesmas proteínas encontradas no leite de vaca, e para atender a um amplo mercado que inclui fabricação de barras proteicas e de cereais, iogurtes, sucos, smoothies, bebidas esportivas e energéticas.

A matéria-prima utilizada hoje, e que leva vantagem sobre a tradicional clorella, por expressar múltiplas proteínas encontradas em plantas e células de mamíferos, é a Chlamydomonas reinhardtii, espécie heterotrófica alimentada com substâncias orgânicas em tanques de fermentação.

Alternativa ao salmão e ômega-3

Além dessas utilidades, as algas também já se tornaram alternativa ao salmão no mercado varejista por meio da startup francesa Odontella, responsável pela criação do “Veggie Marine Salmon”, um produto classificado pela empresa como rico em proteínas marinhas, carotenoides e ômega-3, além de livre de pesticidas e metais pesados encontrados em peixes.

Outra previsão auspiciosa é que até 2024 o ômega-3 à base de algas deve registrar taxa de crescimento anual composta de 11,3% e valorização de mercado de quase R$ 7 bilhões, de acordo com a Mordor Intelligence. Em países como a Índia, o produto à base de algas já tem se tornado uma prioridade em detrimento de sua versão baseada em óleo de peixe.

A vantagem desse ômega-3 de origem não animal, hoje utilizado também no enriquecimento de suplementos, alimentos e bebidas, é que não apresenta riscos de contaminação por poluentes como os bifenilos policlorados, que pode ser encontrado nas versões tradicionais.

David Arioch

Jornalista (MTB: 10612/PR), mestre em Estudos Culturais (UFMS) com foco em pesquisa sobre veganismo e fundador da Vegazeta.

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