China, um mercado promissor de produtos sem carne

China se tornou um dos países mais visados por empresas internacionais que estão produzindo alternativas à carne à base de vegetais

Mesmo com a epidemia de coronavírus, o país ainda está entre aqueles com grande potencial de compra e consumo desses produtos (Foto: Acervo/3 Vegans Blog)

Com 1,38 bilhão de habitantes, a China se tornou um dos países mais visados por empresas internacionais que estão produzindo alternativas à carne à base de vegetais, assim como substitutos de ovos e laticínios.

Mesmo com a epidemia de coronavírus, o país ainda está entre aqueles com grande potencial de compra e consumo desses produtos. O Rabobank, da Holanda, por exemplo, sustenta que a epidemia de coronavírus pode forçar ainda mais uma redução do consumo de alimentos de origem animal no país asiático.

Venda de alternativas à carne já somam US$ 10 bi

Alguns exemplos de empresas que estão com sua atenção voltada a esse mercado são Beyond Meat, Impossible Foods e JUST, além das chinesas Right Treat e Zhenmeat, que acreditam que a China será no futuro um dos maiores mercados consumidores de produtos de origem vegetal que imitam alimentos de origem animal.

Uma prova de que essa é uma realidade alcançável, e talvez até mesmo em um prazo menor do que se imagina, é que alternativas à carne na China já somam 10 bilhões de dólares em vendas a cada ano, de acordo com um relatório divulgado neste mês de março pela multinacional holandesa do ramo de serviços financeiros Rabobank, com base em dados da Euromonitor International.

Mercado impulsionado pelos millenials

Quem está impulsionando esse consumo são as novas gerações, que têm entre suas preocupações formas mais conscientes de consumo. A Zhenmeat, hoje uma das startups mais representativas do ramo de alternativas à carne na China, aponta que 90% dos seus consumidores são millenials, que inclui desde os nascidos na década de 1980 até o princípio dos anos 2000.

Há também uma associação desses novos hábitos com o resgate de culturas ancestrais vinculadas à prática do vegetarianismo no contexto do budismo. Além disso, uma estratégia bastante comum por parte de empresas que querem ganhar mercado em um país estrangeiro, como tem ocorrido na China, é firmar parcerias com empresas do ramo de serviços alimentícios – ou seja, de food service, especialmente catering.  

Muitos produtos à base de vegetais vendidos em três minutos

A Zhenmeat, por exemplo, que é chinesa, chegou a vender três mil caixas de bolo lunar sem ingredientes de origem animal para o Festival do Meio-Outono em apenas três minutos depois de firmar parceria com uma cadeia de padarias. Agora a Zhenmeat está estreitando relação com redes de restaurantes para oferecer baozi, um pãozinho tradicionalmente recheado com carne moída – mas que em sua versão traz carne vegetal.

Outra história bem-sucedida é a da startup de alimentos Right Treat, que já lançou no mercado chinês o OmniPork, uma imitação de carne de porco que já ganhou mercado até em Taiwan, com mais de um milhão de unidades vendidas. A acessibilidade do produto foi possível graças à parceria com cadeias de fast food – como a Bafang Yunji.

Trocando a carne de porco pelo OmniPork

O OmniPork foi criado logo após os surtos de febre suína que atingiram a Ásia, e considerando que vários países asiáticos, incluindo a China, têm o seu consumo de carne baseado principalmente no abate de suínos – que representam 60% desse mercado –  viu uma oportunidade de estimular uma transição para um alimento à base de vegetais, mas que imita carne de porco.

Outro ponto favorável é que, além de desestimular o abate de animais, o produto favorece um mercado mais sustentável ao ajudar a reduzir o total de 1,29 bilhão de toneladas de resíduos gerados por ano só pela China na criação de porcos abatidos e consumidos também em nações como Taiwan.

Startups dos EUA veem grandes oportunidades

Em 2019, e de olho nos millenials, a startup norte-americana JUST lançou na China o seu “ovo sem ovo”, à base de feijão-mungo e cúrcuma. Segundo a empresa alimentícia, a fórmula é a mesma da versão original lançada nos Estados Unidos. Ou seja, a mesma quantidade de proteínas de um ovo de galinha, sem colesterol e produzido com 77% menos água e 40% menos gases do efeito estufa.

No ano anterior, o instituto de pesquisas Plant & Food (PFR), da Nova Zelândia, em parceria com a empresa de pesquisa de mercado Mintel e o Ministério das Indústrias Primárias da Nova Zelândia, concluiu uma pesquisa que revelou que 39% da população da China já vinha reduzindo o consumo de carne – o que inclui chineses e estrangeiros vivendo no país.

39% dos chineses estão reduzindo consumo de carne

Os participantes que representam esse percentual informaram que priorizam o tofu e as algas marinhas, além de outras e novas fontes de proteínas de origem vegetal. O resultado chamou a atenção do governo da Nova Zelândia que tem a China como um dos maiores destinos de suas exportações.

Além disso, o relatório surpreendeu porque historicamente os chineses sempre foram grandes consumidores de carne, principalmente de porco. Porém, segundo a Plant & Food, o cenário está mudando e deve mudar mais ainda. O resultado também abriu um precedente para a Nova Zelândia se inteirar ainda mais do mercado de fontes de proteínas de origem vegetal.

“Precisamos construir nossa compreensão do consumo de proteínas e das atitudes dietéticas nesse mercado para nos prepararmos para quaisquer mudanças futuras em relação ao comportamento do consumidor”, enfatiza o relatório.

Dinheiro para quem consumir comida vegana 

Outro estímulo no cenário chinês foi o recente lançamento de um aplicativo que pagará para as pessoas consumirem comida vegana. O processo é bem simples. Cada vez que alguém pagar por um prato sem ingredientes de origem animal em um restaurante cadastrado no sistema, o Pay-a-Vegan pagará um dólar ao consumidor. No entanto, para receber o benefício é preciso se cadastrar primeiro.

A fundadora do aplicativo, Eiko Onishi, disse recentemente em entrevista ao South China Morning Post (SCMP) que a intenção também é estimular os restaurantes chineses a oferecerem cada vez mais opções veganas.

Dessa forma, eles entram no sistema e se tornam uma referência para pessoas em busca de pratos veganos, o que acaba também atraindo mais visibilidade para esses restaurantes.

A ideia do aplicativo surgiu depois que Eiko, nascida e criada em Hong Kong, participou de um programa de aceleração de startups do Founder Institute nos Estados Unidos, que é uma incubadora de empreendimentos que visam beneficiar o planeta.

É importante encontrar o público certo

Fazendo uma análise geral do mercado chinês e seu potencial no segmento de produtos à base de plantas, o Rabobank defende que empesas do ramo podem assegurar boa demanda na China, desde que encontrem o público certo – como os millenials. Também é preciso se adaptar às preferências locais para ganhar mercado – como criar pratos sem ingredientes de origem animal, mas que imitam alimentos tradicionais chineses.

“No que diz respeito às parcerias, o surto de coronavírus trouxe dificuldades de curto prazo para as empresas de catering. Quando o surto de coronavírus estiver sob controle, será possível continuar formando parcerias com empresas de catering que podem proporcionar uma melhor experiência ao consumidor. Eles também devem aproveitar esta oportunidade para posicionar seu produto como alimento conveniente e nutritivo, porque a conscientização dos consumidores sobre segurança e nutrição será aprimorada ainda mais em decorrência do surto.”

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